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O manifesto das bets admite o problema que passa o resto do texto tentando contornar

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Vale ler o manifesto dos clubes com atenção, porque o documento faz algo raro em nota oficial: ele concede o ponto do adversário logo no meio do próprio argumento.

As entidades reconhecem, por escrito, que existem problemas sociais associados às apostas. Defendem fiscalização mais rigorosa. E então sustentam que a solução não pode ser uma mudança abrupta no modelo regulamentado. A estrutura do texto é clara — o dano é real, mas o remédio proposto é grande demais.

É um argumento legítimo. Também é exatamente o argumento que qualquer setor faz quando é regulado, do tabaco ao combustível fóssil: reconhecer o dano, pedir fiscalização em vez de restrição, e alertar para o custo econômico da mudança. O fato de ser um argumento previsível não o torna falso. Mas ajuda a calibrar o peso que ele merece.

O que enfraquece o documento é o título. Chamar a medida de "o fim do futebol brasileiro" transforma uma discussão de política pública em catástrofe, e catástrofe é difícil de sustentar. O futebol brasileiro existia antes de 2018, quando a aposta esportiva foi legalizada, e existia sem esse dinheiro. Ele era mais pobre e mais endividado — o que é um argumento de verdade, e bem melhor do que o do título.

Há ainda o que o manifesto não menciona. Não há uma linha sobre o torcedor que joga, nem sobre o custo social que o próprio texto reconhece em abstrato. Não há proposta concreta de destinação de parte da receita para tratamento de dependência, algo que outros mercados adotaram como contrapartida. O documento pede fiscalização, mas não oferece nada.

Para um clube do tamanho do Flamengo, que recebe R$ 268,5 milhões por ano do setor, oferecer algo teria peso. Foi a oportunidade que o manifesto deixou passar.

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