O que aconteceu na Itália quando as apostas foram banidas da camisa
A discussão brasileira sobre apostas está sendo tratada como se fosse inédita. Não é. A Itália proibiu a publicidade de apostas no esporte em 2018, com o chamado Decreto Dignità, e o resultado já é observável há anos — o que torna o caso italiano a referência mais útil para entender o que o Brasil está prestes a decidir.
O que aconteceu lá: os clubes perderam os contratos de patrocínio ligados ao setor e não encontraram reposição no mesmo patamar. Times da Serie A migraram para patrocinadores de outros ramos com valores menores, e houve um período de ajuste nas receitas comerciais. A proibição se manteve, com tentativas recorrentes de revisão vindas justamente dos clubes.
O que não aconteceu: o futebol italiano não acabou. A Serie A continuou operando, vendendo direitos de transmissão e formando jogadores. O "fim do futebol" que o manifesto brasileiro projeta não tem precedente no país que testou a medida mais dura.
Há uma diferença importante, e ela pesa a favor dos clubes brasileiros. A Itália tem uma receita de direitos de transmissão muito mais robusta e distribuída do que a brasileira, o que amortece a perda de patrocínio. No Brasil, a dependência do patrocínio máster é proporcionalmente maior, e o colchão é mais fino. O mesmo remédio tem efeito diferente em pacientes diferentes.
O Reino Unido seguiu um caminho intermediário que talvez seja o mais informativo dos dois: em vez de proibir, os clubes da Premier League acordaram retirar as marcas de aposta da frente da camisa a partir de uma temporada definida, mantendo outras formas de exposição. É restrição negociada, com prazo, em vez de corte por decreto.
É essa terceira via que está ausente do debate brasileiro. O governo discute proibir, os clubes discutem manter, e ninguém está discutindo transição com cronograma. Para um clube que recebe R$ 268,5 milhões por ano do setor, negociar três anos de adaptação vale mais do que ganhar ou perder a discussão de uma vez.
