Se as bets saírem, quem paga a base e o futebol feminino?
O manifesto dos clubes cita, entre os prejudicados por uma eventual proibição das apostas, as categorias de base, o futebol feminino, os centros de treinamento e a formação de elenco. Vale examinar essa lista, porque ela é ao mesmo tempo o argumento mais forte e o mais frágil do documento.
É o mais forte porque é verdade que essas áreas são as primeiras a sofrer corte. Base e futebol feminino raramente se pagam no curto prazo. São investimentos que dependem de receita excedente, e receita excedente é exatamente o que some primeiro quando um patrocínio máster não é renovado. Quem acompanha orçamento de clube sabe a ordem em que as linhas caem.
É o mais frágil porque os clubes estão pedindo para manter uma receita sem se comprometer com o destino dela. Não há, no manifesto, nenhuma proposta de vincular parte do dinheiro de aposta a essas áreas. O argumento é "esse dinheiro sustenta a base", mas nada no modelo atual garante que sustente.
Para o Flamengo, a pergunta é concreta. O clube recebe R$ 268,5 milhões por ano da Betano. Quanto disso vai para a base e para o futebol feminino? Enquanto essa resposta não vier em número, o argumento do manifesto continua sendo uma afirmação, não uma demonstração.
Há um caminho que resolveria a questão em favor dos próprios clubes: transformar a promessa em vínculo. Um compromisso público de destinar um percentual definido da receita de apostas à base e ao futebol feminino mudaria a natureza do debate. Deixaria de ser um setor pedindo para preservar receita e passaria a ser um setor mostrando o que a receita produz.
Enquanto isso não acontece, a lista de prejudicados no manifesto funciona mais como escudo retórico do que como compromisso. E o governo, que precisa decidir, não tem motivo para tratá-la como garantia.
